A história do Brasil é constituída por experiências de golpes e governos autoritários aos quais a elite brasileira sempre recorreu para buscar interromper processos de luta e avanço popular. Nesse sentido, o tema da democracia voltou a ganhar destaque a partir da ascensão da extrema-direita, do golpe parlamentar de 2016, do governo Bolsonaro e da nova tentativa de golpe após a eleição de Lula em 2022.
Esses fatos fortaleceram na esquerda em geral o caráter antiautoritário da luta democrática. Cabe, no entanto, frisar que para nós o sentido dessa disputa historicamente sempre se deu com base na defesa de uma democracia radical, construindo o poder com e para aqueles que vivem do trabalho, apontando sempre os limites da democracia liberal, sobretudo quando se é mulher, negro e periférico. Portanto, são três noções, a socialização da riqueza, a liberdade e a universalização de direitos, que caminham juntas.
Desde o fim do século XX, as mudanças na dinâmica da acumulação capitalista produziram uma ofensiva do capital sobre o trabalho intensificada nos campos econômico, social, político e ideológico. Sobretudo, após a crise de 2008, se abriu um novo momento histórico em que o Estado aprofunda ainda mais sua serventia às demandas do mercado financeiro em detrimento das políticas de proteção social. Um projeto com base conservadora que ataca os direitos humanos mais básicos e fomenta o controle dos corpos, incidindo ainda mais sobre os setores sociais que historicamente já tiveram seu acesso a direitos negados. Situação esta que foi provocando uma crescente crise na democracia liberal e suas instituições.
Nesse contexto de questionamento, surgiram movimentos importantes de questionamento à ordem capitalista e à globalização na primeira década do século XX. Por outro lado, também houve o renascimento dos movimentos de extrema-direita em todo o mundo e que passaram a ganhar mais força a partir dos últimos 15 anos.
O necessário combate a esses movimentos colocaram para a esquerda uma tarefa de resistência que passou, em muitos momentos, por defender conquistas e o próprio funcionamento das instituições democráticas que mesmo insuficientes oferecem melhores condições para as lutas sociais do que regimes abertamente autoritários.
Esse é o cenário desafiador pelo qual precisamos passar, buscando uma melhor compreensão dos elementos em jogo e o melhor posicionamento para a defesa do nosso projeto socialista para o século XXI. Como disputar o sentido da crise de legitimidade da democracia liberal? Qual o futuro da democracia na era digital? Num ambiente de fragmentação e desestruturação do tecido social, quais a conexões, programa e pautas possíveis capazes de recuperar uma noção de coletividade e representatividade?
São algumas das provocações, entre tantas outras, que queremos convidar nossa militância e parceiros de luta a debater neste eixo que integra o nosso processo de atualização programática.